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RESISTIR É A PALAVRA DE ORDEM PDF Imprimir e-mail
Escrito por Administrator   
04-Jun-2007

            O “Beira Vouga” com a presente edição assinala o seu 46.º aniversário. Fá-lo de uma maneira modesta, naturalmente. Primeiro, porque modestos somos nós e modesto é o próprio Jornal, pese embora o trabalho exigido para quinzenalmente garantir a sua saída, numa zona particularmente não favorecida nem pelas riquezas da natureza nem compensada pelos governantes na hora do investimento público, que daqui se lembram apenas quando o rei faz anos.

            Mas também o momento actual que vive a imprensa portuguesa é um dos mais difíceis da sua história. Evocando as dificuldades económicas conhecidas, todo o viver em sociedade se teve de adaptar em Portugal ao dinheiro que agora não temos, mas que, quando tivemos, esbanjámos à tripa forra, na maior das impunidades, sem pedir contas a ninguém, reservando para uns tantos fatias intoleráveis de ganhos, enquanto que o nosso povo tem que se curvar ao peso de sachola, sempre que tem necessidade de plantar meia dúzia de couves que ajudem a complementar as suas pensões de miséria. Sem pedir contas a este ou àquele Governo, porque nisso foram todos pouco ou nada escrupulosos, é preciso dizer alto e bom som que o estado a que o país chegou não se deve a crise nenhuma em particular, se não àquela gerada pela nossa própria incompetência, muitas vezes acompanhada de má fé e falta de ética e rigor na governação. Durante dezenas de anos Portugal recebeu da União Europeia dois milhões de contos por dia. Até 2013 tem garantido um milhão e meio de contos diários. Onde foi aplicado esse dinheiro todo? Onde estão as obras que o justifiquem? Onde está a melhoria do nível de vida dos portugueses que o fundamente? Parte, eu digo: sabe o leitor que o nível de vida da zona circundante de Lisboa é superior à média do nível de vida dos países europeus? E sabe também que o nível de vida dos outros portugueses, daqueles que vivem no resto do país, é inferior à média europeia? Isso explica parte do favorecimento dos grandes centros que é hoje a política dominante em Portugal. Mas não explica tudo, naturalmente. Mas também ninguém está interessado em fazer esse levantamento e pedir contas a quem andou a fazer fortunas com os dinheiros do Estado, os dinheiros públicos, sem nenhuma utilidade colectiva, sem qualquer controlo, sem o menor rigor cívico e ético que é a primeira condição para se ser governante. Ou devia ser.

 

             Em nome de todos esses desequilíbrios, o Governo foi puxando a manta. Estica daqui, encolhe dacolá e até pequenas verbas de indiscutível interesse público foram retiradas. A Comunicação social sempre foi reconhecida como prestando um relevante serviço de interesse público. Toda ela. Mas muito em particular a imprensa regional, único elo de ligação com as comunidades espalhadas pelo mundo, única carta de família que emigrantes há anos afastados da sua terra recebiam com regularidade  a dar-lhes notícias do chão que os viu nascer, dos vizinhos cuja memória o tempo foi apagando, do amor familiar que se lhes alojou no peito e cuja ausência os fez sofrer vida fora. Quantos e quantos partiram, sobretudo na primeira metade  do século passado, e nunca mais voltaram? Quantos e quantos preencheram o seu imaginário de crianças recordando as ruas da sua aldeia, evocação que lhes era levada por estes jornalecos que existem  pelo país além mas que, por serem feitos com a alma de um povo, se dirigiam à outra parte desse mesmo povo que o destino levara para em busca do pão que a sua terra lhes não garantia. São milhões os portugueses espalhados pelo mundo. Portugueses que, numa primeira fase, aplicaram aqui os seus rendimentos, que o país também não soube aproveitar.

             Por essa missão de interesse público, os Jornais e demais órgãos de comunicação social tinham algumas facilidades nunca postas em causa por ninguém. Primeiro umas ajudas para as obrigar a adaptar às novas tecnologias; depois preços mais baixos nas tarifas dos telefones, por ser um instrumento de trabalho indispensável para o desempenho do seu trabalho; uma participação nos custos do transporte via CTT para o país e para o estrangeiro, esta última em nome da cultura da nossa língua, da tal ligação a manter com os locais de origem, o tal abraço de amizade que alimentava e mantinha afectos de vida. Acabou quase tudo. Apenas na distribuição postal se mantém uma pequena participação por mais dois ou três anos. Claro que o preço das assinaturas teve que saltar. E muitas pessoas despediram-se de vez da sua terra. Ao mandarem cortar a assinatura, juntavam uma carta explicativa, algumas delas verdadeiros epitáfios em vida feitos pelo próprio punho de quem sabia não ser longo o caminho a percorrer e que o sonho de regresso se esvaíra no decorrer do tempo. Quantos e quantos, resignados à sua condição, deixaram morrer dentro de si o sentido pátrio que, se não garante o pão, alimenta a alma.

             Nesse e noutros aspectos, Portugal vive como que uma espécie de luto silencioso, um luto disfarçado, o bastante apenas para mostrar e assinalar um erro enorme da governação e a dor imensa de gerações de jornalistas que por esse Portugal fora dedicaram todos os seus momentos à procura da pequena notícia que saciava a fome de tantos compatriotas nossos, que aguardavam pelo Jornal como quem espera a água fresca com que se refresca no Verão.

 

            Manter um Jornal, sobretudo em zonas desprotegidas, é hoje um desafio que muitos já não aceitam. Por isso alguns têm dito adeus à vida, já que as forças e os ânimos não sobrevivem muitas vezes ao desalento.

 

            Não fora isso, já o Beira Vouga teria passado a semanário. Era esse o seu projecto, é essa uma das necessidades da nossa zona. Não desistimos nem da ideia nem do projecto. Mas temos que esperar por melhores dias. E temos que esperar pela vivificação da própria comunidade dos concelhos que servimos, que não podem colocar-se à margem das instituições que são indispensáveis ao desenvolvimento de uma zona, seja o concelho sejam vários concelhos ou distritos. Os Jornais, sem nunca deixarem de o terem tido, vão ter uma função cada vez mais importante na reivindicação dos direitos e dos interesses das gentes que servem. Daí que, negar publicidade a um Jornal regional, negar ou não pagar a meia dúzia de tostões que custa uma assinatura, não será com certeza a melhor forma de defender o interesse colectivo. Daí o nosso convite a uma reflexão colectiva e a uma participação mais activa de toda a comunidade, por forma a dar-nos meios para melhor cumprirmos a nossa missão.

         Àqueles, Anunciantes e Assinantes que já entenderam esta realidade, que têm estado connosco, o nosso abraço fraterno. Aos demais, esperamos que venham até nós e nos compreendam e connosco colaborem.

Até porque (e todos o sabem) este não é um projecto editorial com interesses político – partidários. Infelizmente, alguns meios fazem disso a sua razão de ser. Não partilhando embora dessa prática, respeitamo-la sem a apreciar. Mas aqui não. Aqui a informação é connosco e a política é com os políticos e com os cidadãos que escolhem esses políticos. Se querem deitar abaixo ou acima determinado presidente, a não ser em casos de manifesto desrespeito pela comunidade eleitora, não contem connosco.                 Alguns trabalhadores ou simples colaboradores têm sido de uma dedicação sem limite para com este Jornal. Encontrei aqui autênticos hinos à dignidade humana e profissional. Aprendi aqui que a dimensão do homem vai muitas vezes para além das suas próprias forças. Bem hajam por isso.

 
        Paulatinamente vamos prosseguindo o nosso caminho. Espero que a comunidade da zona que servimos, sobretudo Sever e Albergaria, venham connosco. Sozinhos, nunca seremos capazes de cumprir. Mas convosco a nosso lado, também nunca nos calarão a troco das migalhas com que habitualmente alguns Governos compram silêncios e cumplicidades.

 

                                                       Lino Vinhal

 

 

(Editorial publicado na edição da 1.ª quinzena de Junho do Beira Vouga) 

Actualizado em ( 04-Jun-2007 )
 

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