Opinião
Na Grécia como em Portugal, o abandono do mundo rural será causa ou efeito de (não) desenvolvimento?
| Na Grécia como em Portugal, o abandono do mundo rural será causa ou efeito de (não) desenvolvimento? |
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| Escrito por António Pereira Cancela | |
| 02-Fev-2010 | |
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Visitei recentemente a Grécia que tem uma população com pouco mais de 11 milhões de habitantes, dos quais quase 4 milhões, ou seja, cerca de um terço, vivem em Atenas e seus arredores, numa área que corresponde, portanto, a uma pequena parcela do território do país. Em Portugal não existem cidades muito grandes, mas a maior parte da população concentra-se numa estreita faixa do litoral do país.
Consequentemente – a conclusão é óbvia –, em ambos os países existem vastas áreas de território despovoadas e votadas ao abandono. E, no entanto, ambos os países têm sol brilhante e céu azul, mar de águas mansas, límpidas e tépidas, montanhas e planícies ornadas de diversificadas, magnificas e muito belas paisagens. São países em que a natureza, com a sua prodigalidade, generosamente, oferece ao homem excelentes condições para viver, trabalhar e repousar. Acresce que a Grécia e Portugal possuem património histórico de inquestionável valor artístico e cultural. Sobretudo o imenso e qualificado património arquitectónico enriquece as paisagens, modelando-lhes a fisionomia e contribuindo para definir a identidade de ambos os países. As ruínas de cidades e santuários da Grécia Clássica são testemunhos da apurada sensibilidade artística e dos profundos conhecimentos técnicos e científicos de arquitectos, escultores, ceramistas, pintores, pensadores e homens de Estado que conceberam e executaram as obras grandiosas de teatros, estádios, oráculos, palácios ou simples necrópoles, nomeadamente em Epidauro, Micenas, Olímpia e Delfos. Em épocas remotas, quando as vias de comunicação e os meios de transporte eram rudimentares ou praticamente inexistentes, construir obras monumentais, verdadeiramente esplendorosas, em longínquas regiões montanhosas, com acessibilidades difíceis, é, de facto, uma inequívoca demonstração da capacidade empreendedora e realizadora dos povos da Grécia Clássica que era habitada por deuses cujos desígnios, conjuntamente com mitos ou lendas, interferiam poderosamente na vida e na obra dos gregos, condicionando, nomeadamente, a criação de oráculos e cidades. Satisfazendo ou não a vontade dos deuses, inspirados ou não em mitos e lendas, os gregos erigiram cidades e oráculos em locais estratégicos que permitiam garantir a defesa e a efectiva ocupação do território, assim contribuindo certamente para o seu desenvolvimento integral e harmonioso, bem como para o esplendor da Civilização Helénica. Em Micenas, por exemplo, a muralha e a Porta dos Leões são construções majestosas do século XIV a. C. nas quais foram utilizados volumosos e pesadíssimos blocos de pedra regularmente talhados e devidamente aparelhados. Ainda em Micenas, o Túmulo de Agamémnon ou Tesouro de Atreu, que se implanta na encosta de uma colina fronteira à Acrópole, é uma construção circular com uma falsa cúpula de 14,6 metros de diâmetro e 13,5 metros de altura, cujo acesso se faz por um corredor em falsa abóbada com 10,5 metros de altura. Um enorme bloco de pedra com o peso de 122 toneladas — em época tão remota, quais seriam os meios disponíveis para mover e colocar a alguns metros de altura tão pesado bloco? —, encontrando-se incorporado na estrutura da cobertura do corredor e avançando para o interior do túmulo, poderá contribuir para reforçar a solidez da construção que se mantém intacta. Também em Delfos, outro exemplo, que os gregos consideravam o umbigo (ônfalo) do mundo, as ruínas são testemunho da grandiosidade, da magnificência, do Oráculo que ocupava uma vasta área a meio de uma íngreme encosta, na base de um enorme morro rochoso. Actualmente, entre as ruínas, sobretudo entre as que se encontram na parte mais baixa da encosta, aliás do mesmo modo que em outras encostas e vales da região, crescem verdejantes olivais que, dizem os entendidos, produzem as melhores azeitonas e o melhor azeite do mundo. Em Portugal, existem bastantes antas ou dólmenes e menires, alguns castros e ruínas de povoações romanas, muitos castelos e alguns vestígios de construções do tempo da ocupação árabe. Os monumentos mais antigos, as antas e os menires, com 5 ou 6 mil anos de idade, do período Neolítico, são construções megalíticas muito sólidas e historicamente muito valiosas que impressionam pela enormidade dos blocos de granito utilizados. Mas, em Portugal, enriquecem o património arquitectónico sobretudo as construções da Era Cristã, nomeadamente templos religiosos, palácios ou solares e casas simples, construídas com granito, sóbrias mas muito belas, que abundam principalmente nas Beiras, no Minho ou em Trás-os-Montes. Contudo, apesar das suas potencialidades, da prodigalidade da natureza e do valioso património cultural herdado, a Grécia e Portugal, na actualidade, têm-se acompanhado, ocupando quase sempre lugares fundeiros de escalas classificativas elaboradas em função do desenvolvimento, designadamente do desenvolvimento económico, dos países da União Europeia. Dizem que a actual situação económica e financeira da Grécia e de Portugal é calamitosa, encaminhando-se ambos os países para o abismo, para uma situação de colapso iminente. Não serão provavelmente alheias à actual situação que se vive em Portugal e na Grécia as políticas seguidas, que são da responsabilidade dos seus políticos. Sobre o comportamento dos políticos gregos e as suas politicas, que não conheço suficientemente, não me pronunciarei. No que respeita a Portugal, lembrarei que alguns políticos, aparentemente sem pudor, com poucos escrúpulos, talvez porque consideram, equivocadamente, é certo, o seu povo facilmente influenciável e manipulável ou porventura incapaz de compreender os complexos e intrincados problemas da politica, não lhe dizem a verdade. Não sendo, obviamente, néscios mas, pelo contrário, lúcidos e ilustrados, esses políticos, que parecem não se preocupar demasiado com a elaboração dos seus raciocínios, embrenham-se em dialécticas e retóricas estéreis e cansativas esgotando a paciência dos cidadãos que se vão alheando e afastando progressivamente das coisas da politica. Em consequência, quando chega a hora de votar, muitos eleitores abstêm-se, alguns votam em branco e outros votam contra. Votam contra os partidos que mentem ou, enfim, contra os partidos que mentem mais. É uma opção difícil porque, afinal, de farsante todos os partido têm um pouco. São votos de protesto que, se bem que haja sempre quem, indefectivelmente, vote no seu partido, ajudam a vencer ou a perder eleições. Cabe aos políticos o privilégio e também a responsabilidade de conceber, conduzir e concretizar as suas politicas, sem, todavia, nunca esquecer que o seu primeiro compromisso é com os eleitores que, sendo também os contribuintes, têm o direito de exigir rigor, verdade e ética nos seus comportamentos. Os eleitores, que apreciam as habilidades ou as artimanhas da dialéctica e da retórica, que gostam de debates de ideias calorosos, entusiásticos e frontais, exigem, no entanto, honestidade, seriedade e nobreza na sua condução porque não querem que a democracia seja uma farsa nem, muito menos, que o país seja uma desgraça. Na Grécia Antiga, no século V a.C., Sócrates, um filósofo e um lutador, foi condenado à morte por combater com determinação e aspereza, incomodando alguns dos seus concidadãos, a sofistica e a falsa retórica. Em Portugal, no século XXI d.C., Sócrates, um político e um lutador, será enaltecido se denunciar, combater e erradicar a demagogia e, já agora, a chaga da corrupção.
António Pereira Cancela |
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